Perdoado por Deus, cobrador dos outros
Mateus 18:32-33
“Então o senhor, chamando-o, disse: ‘Servo perverso, perdoei-lhe toda aquela dívida atendendo às tuas súplicas. Não devias tu, da mesma maneira, compadecer-te do teu conservo, assim como eu me compadeci de ti?’”
“Deus é bom demais! Mais um dia começando... Meu nome é Hugo Jordão e o tema do devocional de hoje é “Perdoado por Deus, cobrador dos outros””
Uma dívida impossível de pagar
Em Mateus 18, Pedro faz uma pergunta para Jesus: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” Jesus responde que não apenas sete, mas setenta vezes sete. Logo depois, conta uma parábola para explicar a profundidade do perdão.
Um rei decidiu acertar as contas com seus servos. Entre eles havia um homem que devia uma quantia gigantesca, muito além da sua capacidade de pagamento. Quando percebeu que perderia tudo, aquele servo se ajoelhou e pediu: “Tem paciência comigo, e tudo te pagarei.”
Mas o rei fez algo muito maior do que aquilo que ele pediu. O servo pediu prazo. O rei lhe deu perdão.
Movido de compaixão, cancelou toda a dívida e deixou aquele homem ir embora livre.
Imagine o alívio. Uma dívida impossível de pagar simplesmente deixou de existir. Aquele homem saiu da presença do rei sem precisar carregar o peso da cobrança que o acompanhava.
O que ele faria depois de experimentar tamanha misericórdia?
Perdoado, ele saiu procurando alguém para cobrar
Jesus continua a história dizendo que, ao sair dali, aquele servo encontrou um conservo que lhe devia uma quantia muito menor.
A dívida existia. O segundo servo realmente devia dinheiro ao primeiro. Jesus não conta a parábola como se a cobrança tivesse surgido do nada. Havia uma dívida real.
Mas então acontece algo absurdo.
O homem que acabara de receber misericórdia agarra seu conservo pelo pescoço e começa a sufocá-lo dizendo: “Paga-me o que me deves!”
O conservo faz praticamente o mesmo pedido que ele havia feito ao rei: pede paciência e promete pagar. Mas aquele que minutos antes implorava por misericórdia agora se recusa a oferecê-la. Em vez disso, manda prender o homem até que a dívida seja paga.
Ele havia sido completamente perdoado, mas continuava vivendo como cobrador.
É possível receber perdão e continuar cobrando?
É justamente aqui que essa parábola começa a nos confrontar.
É muito fácil olhar para aquele servo e pensar: “Como alguém pode agir dessa maneira depois de ter sido perdoado de uma dívida tão grande?”
Mas talvez façamos algo parecido com mais frequência do que imaginamos.
Nós falamos sobre a graça de Deus. Cantamos sobre o perdão. Agradecemos pelo sangue de Jesus. Reconhecemos que Cristo pagou uma dívida que jamais conseguiríamos pagar.
Então alguém nos machuca.
Uma mentira. Uma traição. Uma injustiça. Uma palavra que feriu. Uma promessa quebrada. E, de repente, esquecemos a posição que ocupávamos diante do Rei e assumimos o papel de cobradores.
Não estou dizendo que a ofensa não aconteceu. A dívida do conservo era real. O problema não era reconhecer que existia uma dívida. O problema era alguém que havia recebido tamanha misericórdia se recusar a demonstrar misericórdia.
Existem muitas maneiras de cobrar uma dívida
Quando pensamos em vingança, talvez imaginemos alguma atitude muito grave. Mas existem maneiras mais sutis de continuar cobrando alguém.
Você pode dizer que perdoou e continuar humilhando a pessoa. Pode tratar com desprezo, usar o silêncio como punição ou aproveitar qualquer discussão para trazer novamente à tona aquilo que aconteceu.
Talvez você diga: “Eu já perdoei.” Mas, na primeira oportunidade, afirma: “Você lembra do que fez comigo?”
Isso é cobrança.
Quando utilizamos constantemente o erro passado de alguém como uma arma para feri-lo no presente, precisamos avaliar se realmente renunciamos à dívida ou se apenas mudamos nossa maneira de cobrá-la.
Perdão não combina com uma cobrança que nunca termina.
Perdoar não é dizer que não houve dívida
Aqui precisamos ter bastante cuidado. Perdoar não significa fingir que nada aconteceu.
Se alguém mentiu, mentiu. Se houve traição, houve traição. Se aconteceu uma injustiça, não precisamos chamar aquilo de justiça para conseguir perdoar.
O próprio ensino de Jesus reconhece a existência da dívida.
Perdoar também não significa apagar automaticamente todas as consequências. Dependendo da situação, talvez seja necessário estabelecer limites. Uma relação pode precisar de tempo para ser reconstruída. A confiança pode ter sido quebrada e precisar ser recuperada através de atitudes consistentes.
Perdão e confiança não são exatamente a mesma coisa.
Perdoar não é dizer que a dívida nunca existiu. É decidir que você não viverá mais cobrando seu pagamento.
A cruz muda a maneira como enxergamos a dívida dos outros
Existe um detalhe fundamental na parábola. Jesus estabelece uma diferença enorme entre as duas dívidas.
O objetivo não é dizer que aquilo que fizeram contra você não teve importância. Algumas pessoas carregam feridas extremamente profundas. Existem ofensas que mudam histórias, destroem relacionamentos e deixam consequências por muitos anos.
A comparação de Jesus aponta para outra direção: antes de olhar somente para aquilo que alguém fez contra nós, precisamos nos lembrar daquilo que Deus perdoou em nós.
Nossa dívida diante de Deus era impossível de pagar. Não conseguimos resolver o problema do nosso pecado através de boas obras, religiosidade ou esforço pessoal.
Então Cristo pagou.
Como vimos nos últimos devocionais, nosso perdão não foi barato. Custou o sangue de Jesus. Ele tomou nosso lugar, recebeu a condenação que era nossa e nos ofereceu aquilo que jamais conseguiríamos conquistar sozinhos.
Por isso, perdoamos olhando primeiro para a cruz e não para o merecimento de quem nos feriu.
“Mas essa pessoa não merece”
Provavelmente não.
E esse é justamente o significado da graça.
Se perdão dependesse de merecimento, não seria perdão. Seria pagamento por bom comportamento.
Quando alguém nos machuca, existe dentro de nós um desejo de justiça. Queremos que a pessoa reconheça aquilo que fez, sofra alguma consequência e compreenda a dimensão da dor que provocou. Dependendo da situação, consequências realmente podem existir e justiça pode ser necessária.
Mas existe uma diferença entre buscar aquilo que é justo e assumir pessoalmente a missão de fazer alguém pagar emocionalmente pelo resto da vida.
Perdoar é entregar a Deus esse lugar.
Não significa dizer: “Aquilo não importa.” Significa dizer: “Eu não vou continuar vivendo como cobrador dessa dívida.”
O rei faz uma pergunta que também precisamos responder
Quando o rei descobre aquilo que aconteceu, chama o servo e pergunta: “Não devias tu, da mesma maneira, compadecer-te do teu conservo, assim como eu me compadeci de ti?”
Essa pergunta atravessa a parábola e chega até nós.
Depois de tudo o que Deus perdoou em você, como você tem tratado aqueles que lhe devem?
Não responda rapidamente.
Talvez exista alguém que você diz ter perdoado, mas cujo erro continua sendo utilizado como arma. Talvez você ainda espere uma oportunidade para devolver aquilo que recebeu. Talvez exteriormente exista paz, mas interiormente você continue desejando que aquela pessoa pague.
Jesus está nos chamando para lembrar da misericórdia que recebemos.
Quem compreende o tamanho da graça que recebeu começa a olhar de outra maneira para as dívidas que possui para cobrar.
Perdoar pode ser uma decisão repetida
Existem situações em que você toma a decisão de perdoar hoje e amanhã a lembrança volta. A dor reaparece e, junto com ela, a vontade de cobrar novamente.
Isso não significa necessariamente que sua decisão anterior foi falsa. Algumas feridas levam tempo para cicatrizar.
Talvez você precise voltar diante de Deus e reafirmar: “Senhor, eu entreguei essa dívida a Ti. Não quero retomá-la.”
Perdão pode começar em uma decisão e continuar sendo trabalhado em nosso coração ao longo do processo de cura.
O importante é não alimentar conscientemente aquilo que Deus está nos chamando a entregar.
Você não precisa fingir que não dói. Mas também não precisa transformar sua dor em uma dívida que será cobrada pelo resto da vida.
Perdoado por Deus ou cobrador dos outros?
Talvez a pergunta de hoje seja desconfortável, mas necessária: você tem tratado as pessoas de acordo com a misericórdia que recebeu de Deus ou de acordo com a dívida que acredita que elas possuem com você?
Todos nós queremos ser o primeiro servo diante do rei. Queremos misericórdia, paciência e perdão.
A dificuldade aparece quando encontramos nosso conservo do lado de fora.
O Evangelho não apenas muda nossa posição diante de Deus. Ele começa a mudar também a maneira como tratamos pessoas.
Nós perdoamos porque primeiro fomos perdoados.
Quem se lembra constantemente da cruz encontra motivos para abandonar a cadeira de cobrador.
Vamos orar?
“Pai, em Nome de Jesus, eu Te agradeço porque o Senhor me perdoou por meio do sacrifício de Cristo na cruz. Eu tinha uma dívida que jamais conseguiria pagar, mas Jesus pagou por mim e me alcançou com misericórdia. Perdoa-me pelas vezes em que recebi Tua graça e continuei cobrando daqueles que me feriram. Mostra-me se existe alguém que eu digo ter perdoado, mas cujo erro ainda utilizo como arma. Dá-me graça para renunciar à cobrança sem negar a realidade daquilo que aconteceu. Cura meu coração, dá-me sabedoria para estabelecer os limites necessários e ensina-me a demonstrar a misericórdia que primeiro recebi de Ti. Em Nome de Jesus. Amém.”
Desafio do dia
Pense em uma pessoa que você afirma ter perdoado e faça uma pergunta sincera: “Eu realmente renunciei à dívida ou continuo tentando cobrar de alguma maneira?”
Observe se você ainda joga o erro na cara dessa pessoa, utiliza o passado para humilhá-la, age com desprezo ou alimenta interiormente o desejo de fazê-la pagar.
Se identificar alguma dessas cobranças, apresente isso a Deus e diga conscientemente: “Senhor, eu entrego essa dívida a Ti. Não quero continuar cobrando aquilo que decidi perdoar.”
Se houver consequências ou limites necessários, trate-os com sabedoria. Mas não transforme o erro de alguém em uma dívida eterna.
Você foi alcançado por uma misericórdia que jamais conseguiria pagar. Agora, permita que essa mesma misericórdia transforme a maneira como você trata quem lhe deve.
Compartilhe esse devocional para quem você ama, me siga no Instagram @hugorjordao
E não se esqueça: DEUS É BOM!